domingo, 24 de fevereiro de 2008
O Médico e o Legista
O médico e o legista. Vizinhos de muro, colegas de cordiais “bom dia”s.
Cidade pequena... Sabiam muito um da vida do outro. Suas esposas eram amigas – era possível vê-las voltando a pé da igreja aos domingos, a parolar.
Certo dia, um domingo, ambos esperavam as mulheres na soleira da porta : o médico colocava alpiste para o canário belga; o legista a fumar seu charuto. Cumprimentaram-se, sorriram, e então o silêncio começou a incomodar aqueles dois cidadãos muito polidos. Resolveram quebrá-lo com palavras óbvias.
- A sua esposa também foi à missa? – começou o médico.
- Ah, sim. Vai praticamente todo domingo. A sua também, não?
- Sim. Olhe lá, as duas! – e vinham juntas as mulheres
-Marie fala muito da dedicação de sua mulher à igreja.
- Engraçado... Julie comenta sofre a grande fé de Marie.
- É, de fato. Marie coloca no altar o nome de todos os mortos que examino, e reza para cada um deles ter um bom destino.
- Interessante. Julie também reza para os meus pacientes, para que sobrevivam.
As mulheres chegaram e não mais se tocou no assunto.
Tanto o médico quanto o legista não acreditavam nas rezas de suas esposas. Um perdera muito enfermos inocentes e de bom coração, e outro já examinara cadáveres de bandidos que certamente não iam para o Céu, se esse existir.
A série "Contos não imaginados até o fim" não começou nesse blog, e espero que nem aqui termine. Esta coleção-botão, composta por contos-relâmpago, fará 1 ano em março, e como comemoração, posto sua quinta parte.
2 comentários:
Psiu! Ta ouvindo os aplausos? Muito, mas muito bom!
Blitzkrieg literária! Gostei da idéia e do conto em si. Que venham mais!
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